Starry Night, Van Gogh
Versos de octubro
I
Respiro a tarde que se inclina por uma narina só
Insinua-se no tempo, lasciva e contente
E o meu corpo franzino e ainda convalescente
Sorve a vitalidade do tempo e partículas de pó
Ventos serenos na varanda de minha casa
Plasmam o espectro passado das coisas mais puras
Acato de bom grado tardes, suas reluzentes curvas
E os tons de rosa das rosas e as folhas que as circundam
Uma moeda de fogo valiosa e incomensurável
O dourado do capim me lembra selvas africanas
E a lua nascente sobre o fundo de anil
Como diria meu tio: “foi a mesma que Cristo viu”
As ressacas do corpo são menores que as da mente
As navalhadas do tempo são quase incicatrizáveis
- As pessoas do agora, a sonoridade do sorriso-
Minha avó alinhavando pano lembra-me perfeitamente isso
II
A essa hora da tarde, o meu avô na varanda
Minha outra avó aperreada que esse povo não janta
Minha tia na escola, minha outra na topique
Lá nos sertões do nordeste onde os paternos residem
Minha tia, meu cachorro dourado da cor do sol
Meus amigos do peito, muito obrigada por tudo
Olho para a vida nessa pequena hora
Olho meus próprios olhos, escuto os acordes cardíacos
III
Quando eu morrer de verdade como essa tarde está morta
E não retornar meio-dia como essa tarde retorna
Deita-me inteira no peito como se eu fosse filhote
Ecoa-me nos ouvidos como os conselhos das mães
Canta-me nas madrugadas como se eu fosse folclore
Recita-me nos recreios para as primeiras paixões
Guarda-me como eu guardo o latido
Do cão que me chama e abana e brinca
Decora-me as palavretas como se fosse Camões
IV
Imagina-me nos beijos mais crus e adolescentes
Eterniza-me no gesto da partilha da comida
Seja fiel a um amigo como eu estive sendo
Arrependa-se dos erros e das mágoas mais antigas
Perdão meus conhecidos pela afasia louca!
Perdão por aqueles deslizes que não vistes e eu praticava
Mas que eu possa ter em vida a verve de Maiacovisky
Que eu adquira de Pessoa um ar introspectivo
Que eu tenha um destino épico como em Lusíadas se fala
Que eu me pareça com Shakspeare no amor que não se cala
V
Que eu seja como Agostinho Neto, um amante do meu povo
Que nunca veja empecilhos como Cora Coralina
Que seja ácida e penetrante, o Uivo de Allen Ginzberg
Que minha velhice seja plena como a de Manoel de Barros
Que eu incomode autoridades como Gregório de Matos
Que minha hora seja esta como a de Drummond de Andrade
Que eu entenda da vida como entende Galeano
Que eu vá ter a beleza que teve Cecília Meirelles
VI
Que existam muitas cervejas ainda no Arco do Telles
Que reabram meu bar predileto na Rua do Ouvidor
Que muitos jovens poetas sonhem escrevendo paredes
Que muitos bêbados sinceros convidem um mendigo à mesa
Que eu me livre do medo de amar quem não dá certo
Que eu ganhe a vida de um jeito que não me venda muito
Que possa ter com meus filhos pouco mais de paciência
Que os próximos poemas completem mais coerência
VII
Que o trânsito da cidade seque como seca a nascente dos rios
que portas fiquem abertas para um sono sem calmantes
que os moleques conservem brincadeiras de subúrbios
que vejamos a paisagem livre dos incômodos anúncios
que haja cinema e pipoca na cesta básica brasileira
que as praias se multipliquem como micróbios na umidade
que eu me apaixone antes de saber se é de verdade
que eu te roube um beijo sem ter que pesar conseqüências
VIII
Que haja, que haja palavras
Que os temas não se esgotem nunca
que o silêncio seja uma maneira funda
de dizer o que não se precisa
Mundo mundo vasto mundo
Se eu me chamasse Raimundo
Seria homem e teria cara de cão
Mundo mundo vasto mundo
Drummond era um bonachão!
Minha terra tinha palmeiras
Onde cantava o sabiá
As aves que aqui gorgeavam
Já não gorgeiam nem podem voar
Uma parte de mim é todo mundo
A outra parte esqueci
Que esse poema é confuso
Uma parte de mim almoça e janta
Outra passa fome pra não perder o verso
O amor é fogo que arde sem se ver
É foda não ter mais o que escrever.
Outubro, 2011.