quinta-feira, 1 de março de 2012

Abraços Partidos
Almodóvar, gracias
Do tempo em que eu te levava para dentro
Passaram pileques altos não alcoolizados
Passaram noites brancas de silêncio, nuvens
Na versão do conto - não autorizado -
Passaram fantasias sem margem e papel

Do tempo em que eu cria em eternidades
Passaram gritos pândegos de desencanto
Passaram cortes finos de não proferidos
Passaram suspiros maiores ternários:
Ensaiou-se uma marcha comum.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

13:13, agora.



Sou de beleza imperfeita:
    Irregulares orelhas
Seios pequenos e tortos
Sei amplas possibilidades
De alcance estético linear
     _ Não quero _

Sinto-me os ossos do dia
Não tomo café, emagreço
Leio de manhã as poesias   
E esqueço, esqueço!
Que tudo não está para o lirismo
como Eu para Heyk  
                          E Arthus Fochi


Não estou nas ruas
Não enfrento o sol
Não encaro leitores, fregueses     
Não pago pão com sonho    

Não exploro continentes
Não arrebentei a casca
Não fugi da prisão que é
Esse nada que se inerte      

Assisto apenas o dia,           
Mas escrevo                               
Escrevo Poesia                              
Ainda que só seja aqui do quarto   
Ainda que eu mesma só a veja
Ainda que avessa à extro-versão

Vivo crises psicóticas
de aguda contradição  
De escancarar-me errado
e esconder-me o Certo 
Encontro meu oposto  
complementar,
In verso 

Ó almas que ecoam universos!          
Sintam minha alma, o meu ser
------------Cá óptico-------
Multipliquemos os tempos

------Amarremos fios-----
De cada milésimo de encontro
De cada naco de pensamento
Cada congestão e eletro choque

------Amarremos fios------
De cada dor que penetraram     
De cada confissão não proferida     
De cada molécula d’água
                                                                                        
------Amarremos fios-------
De cada paixão avassaladora
De cada palavra não digerida
De cada idéia genial descartada
De cada coito (des) interrompido
        
------Amarremos fios------------
Pelo mundo de ponta, dentro e fora           
Acertemos novelo, catando pontinha            
Costuremos flores de mil primaveras        
Amarremos fios cada Nova Era                
                                                       
Amarrem seus fios-------                                                          
Aos meus que imploram                        
Continuidades maiores possíveis
Não quero a existência                             
Que me deram as horas                            
De todo Ocidente
Seu medir-se medíocre
                            
----Amarremos fios-----
Telepaticamente sim, mais nada

----Amarremos fios-----
Mais forte que possamos

----Amarremos fios-----
Como se todas as coisas esperadas
Fossem já todas as coisas em um só
Vi vidas.

Quero um tempo próprio   
     
----Amarremos fios-----   
          
Para recolher-me o quanto         
For preciso
                                                        
Darei o possível

----Amarremos  fios----- 
                        
Dessa minha estrada                   
Pequenina em tudo                     

----Amarremos fios-----        
Eu peço para irmos                  
Tecendo de almas
O tapete mudo       

O tempo implora                         
Uma geração sussurra:
Com batalhas dentro,
Amarremos fios...


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

                                                                                             Desenho de Thiago José


Casa Félix

Não termino a poesia
De Ana Cristina César
Arrumo coisas de fora
Preparo partida

Deixar a casa é deixar-me
E entender que se me vou
É sempre um vôo incompleto
Um rir de semicolcheia
Em compasso de 2/ muitos

Porque brincamos de contar estórias
Deitados no tapete de cocô do gato
Olhando em preto e branco, filhotinhos
Alongando seus ossos em construção:

- É preciso pegar com cuidado,
o osso dele ainda é fino, pode quebrar.
O da Babanan já é forte. – avisa Apoena.

Alongamos, nós e gatos,
Como circenses e bailarinas
E ouvimos estalos e ruídos:
Como os sons da criação

E o Word corrige a palavra Apoena
Porque não sabe ler nomes indígenas
Não sabe os códigos de nossa tribo
Não sabe nada que não seja inglês

E sublinha Babanan, pois não legitima
Gatos cujos nomes criativos
Marcam nossa infância e juventude
E nos fazem criar músicas para que sejam
Imortais em todos os gatos do mundo

E não sabe que existe uma criança
Atenta aos ossos dos bichos
Que não tem um nome cristão

Porque nomes indígenas e africanos
Não estão na programação
Dos computadores incultos
Cultuando o idioma padrão
...
Tentamos acordes dissonantes
Destoando de cálices e buzinas
Extraímos sons de sagüis e de sinos
Soprando fortes árvores marginais

E dançamos cirandas festivas
Celebrando crianças interiores
E aplaudimos a santa comida
Que traz energia para a alma

Às vezes, muito quente, a tarde
Tiramos nossas armas e camisas
E sentimos o cheiro um do outro
Sem barreiras de sabão e aero sóis

E cheiramos à gente, à brasilidade
Cheiramos a sonhos e latino-américa
Cheiramos a livros e também a traças
Farejamos futuros e elos perdidos

Aprendemos o valor das ervas
e das palavras que germinam
aproximações

Criamos ninhos e niños
Pelos cruzamentos
Das estradas, dos corpos
E dos corações

Engendramos uma nova espécie
Homo sapiens-
                         demis-
                                      animales
O ser já não sabe se sabe
Apenas vive,
                     ama,
                                devaneia.



quarta-feira, 4 de janeiro de 2012



Do prédio espelhado
19:00 horas, horário de verão.


Da minha varanda olho a vida
Sinto os humores da tarde se modificando
Sinto os odores das plantas e dos cimentos
Do meu sovaco, dos pelos e dos cachorros

Sinto que cheiro a jardim, pólen das abelhas
De jasmim e coisas amarelas não tituladas
Cheiro para além da minha capacidade
Não só com o nariz, mas com a mente

Sinto também a lisura dos cabos
Dos fios que telegrafam e grampeiam
Nossas conversas indispensáveis à cidade
E tornam a paisagem feia,
sem que ninguém dê por isso.

Sete anos, como os anos passam!
Sete é uma ilusão de ótica
Parece grande de longe e é, de perto,
Uma marcação, minúscula cronologia

Há vinte e três anos nasci
Há sete que espreito tardes
Da varanda da casa que finjo minha
Sei das falhas do assoalho, das ervas daninhas
Que crescem nas pessoas e nas pedras portuguesas


Nasci, e se alguém me pergunta quando
Digo que provável a 04 de outubro de 88
E não apenas porque consta no registro
Mas porque era dia de São Francisco,
Toda família o sabe

Nasci, e quando o fiz havia o muro
Que separava a Alemanha Oriental
Nasci um pouco antes do colapso de tudo
E do que chamaram Nova Ordem Mundial

Tudo quanto há para saber de tudo
Podemos saber de dentro de nossa casa
E já o sabemos de dentro de dentro
Do túnel do tempo de nossas marcas

Estou circunscrita, por exemplo,
A uma certa temporalidade
E ao território onde eu nasci e vivo
Tenho limitado corpo, mas em espírito
Eu sou, eu sempre fui, mulher do mundo

Almas não tão cosmopolitas
Projetaram este prédio espelhado
Bloqueando nossa profundidade de campo
E o resto de beleza que existia em Santa Rosa

Falo do meu bairro porque é preciso
Que os poetas se irmanem aos espaços
Que transem com os lugares que habitam
Que ponham significado a cada pedra

Sentirei saudade, por exemplo,
Da casa que é boca-de-fumo
De sua dona de chaveiro espalhafatoso
De seu aspecto intrigante, de antiquário

Ou da fila que  se forma ao restaurante
Dos vizinhos que passeiam aqui em baixo
Dos vizinhos todos, mesmo os antipáticos
E dos telhados enegrecidos das casas que restam

Sei disso porque já sinto saudade imensa
Do verde que contornava a montanha de frente
E da voz grave de meu pai que observava
Que as árvores da montanha apostavam corrida

Uma coisa que eu nunca mais fiz na vida
É olhar bem para o céu em movimento
E procurar nas nuvens que se espalham
Um dromedário cuja forma não conheço

Mas os homens fazem prédios espelhados!
Que nem mesmo espelham as nuvens
Que nós mesmos, ao olharmos as janelas,
Não nos vemos por ela refletidos

Ó quão pobres e maus são os ricos!
Que edifício construímos sobre a humanidade!
Cercando campos e campos de pensamento
Que coisas tristes dizemos, que necessidades engendramos

Eu sei, eu vi esquerdas e direitas
Construindo edifícios com as mesmas fundações
E pensando nisso tudo, ao invés de aviões,
Penso mesmo é nos pássaros e sugiro-os seriamente

Dizem que os poetas são utópicos e inconseqüentes
Dizem que os raciocínios precisam ser lineares
Olho para ao edifício e entendo porque nos dizem:
Chamam utopia a todas as coisas razoáveis.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

                                           Starry Night, Van Gogh

Versos de octubro

I

Respiro a tarde que se inclina por uma narina só
Insinua-se no tempo, lasciva e contente
E o meu corpo franzino e ainda convalescente
Sorve a vitalidade do tempo e partículas de pó

Ventos serenos na varanda de minha casa
Plasmam o espectro passado das coisas mais puras
Acato de bom grado tardes, suas reluzentes curvas
E os tons de rosa das rosas e as folhas que as circundam

Uma moeda de fogo valiosa e incomensurável
O dourado do capim me lembra selvas africanas
E a lua nascente sobre o fundo de anil
Como diria meu tio: “foi a mesma que Cristo viu”

As ressacas do corpo são menores que as da mente
As navalhadas do tempo são quase incicatrizáveis
- As pessoas do agora, a sonoridade do sorriso-
Minha avó alinhavando pano lembra-me perfeitamente isso

II

A essa hora da tarde, o meu avô na varanda
Minha outra avó aperreada que esse povo não janta
Minha tia na escola, minha outra na topique
Lá nos sertões do nordeste onde os paternos residem

Minha tia, meu cachorro dourado da cor do sol
Meus amigos do peito, muito obrigada por tudo
Olho para a vida nessa pequena hora
Olho meus próprios olhos, escuto os acordes cardíacos

III

Quando eu morrer de verdade como essa tarde está morta
E não retornar meio-dia como essa tarde retorna
Deita-me inteira no peito como se eu fosse filhote
Ecoa-me nos ouvidos como os conselhos das mães
Canta-me nas madrugadas como se eu fosse folclore
Recita-me nos recreios para as primeiras paixões

Guarda-me como eu guardo o latido
Do cão que me chama e abana e brinca
Decora-me as palavretas como se fosse Camões

IV

Imagina-me nos beijos mais crus e adolescentes
Eterniza-me no gesto da partilha da comida
Seja fiel a um amigo como eu estive sendo
Arrependa-se dos erros e das mágoas mais antigas

Perdão meus conhecidos pela afasia louca!
Perdão por aqueles deslizes que não vistes e eu praticava
Mas que eu possa ter em vida a verve de Maiacovisky
Que eu adquira de Pessoa um ar introspectivo
Que eu tenha um destino épico como em Lusíadas se fala
Que eu me pareça com Shakspeare no amor que não se cala

V

Que eu seja como Agostinho Neto, um amante do meu povo
Que nunca veja empecilhos como Cora Coralina
Que seja ácida e penetrante, o Uivo de Allen Ginzberg
Que minha velhice seja plena como a de Manoel de Barros

Que eu incomode autoridades como Gregório de Matos
Que minha hora seja esta como a de Drummond de Andrade
Que eu entenda da vida como entende Galeano
Que eu vá ter a beleza que teve Cecília Meirelles

VI

Que existam muitas cervejas ainda no Arco do Telles
Que reabram meu bar predileto na Rua do Ouvidor
Que muitos jovens poetas sonhem escrevendo paredes
Que muitos bêbados sinceros convidem um mendigo à mesa

Que eu me livre do medo de amar quem não dá certo
Que eu ganhe a vida de um jeito que não me venda muito
Que possa ter com meus filhos pouco mais de paciência
Que os próximos poemas completem mais coerência

VII

Que o trânsito da cidade seque como seca a nascente dos rios
que portas fiquem abertas para um sono sem calmantes
que os moleques conservem brincadeiras de subúrbios
que vejamos a paisagem livre dos incômodos anúncios

que haja cinema e pipoca na cesta básica brasileira
que as praias se multipliquem como micróbios na umidade
que eu me apaixone antes de saber se é de verdade
que eu te roube um beijo sem ter que pesar conseqüências

VIII

Que haja, que haja palavras
Que os temas não se esgotem nunca
que o silêncio seja uma maneira funda
de dizer o que não se precisa

Mundo mundo vasto mundo
Se eu me chamasse Raimundo
Seria homem e teria cara de cão
Mundo mundo vasto mundo
Drummond era um bonachão!

Minha terra tinha palmeiras
Onde cantava o sabiá
As aves que aqui gorgeavam
Já não gorgeiam nem podem voar

Uma parte de mim é todo mundo
A outra parte esqueci
Que esse poema é confuso
Uma parte de mim almoça e janta
Outra passa fome pra não perder o verso

O amor é fogo que arde sem se ver
É foda não ter mais o que escrever.

Outubro, 2011.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Aparelho de som


Sou de uma tonalidade intermediária
Nem herói da era de Aquário
Nem  poeta sem eira nem beira
Nem militante subversivo foragido
Nem aristocrata político ateniense

Sou como sou, feito realidades possíveis
De sonhos amarelados de indolência
Entrei vivo e saí da adolescência
Com algumas seqüelas paradigmáticas


Escuto o som da televisão da sala
Tento estudar e me perco...
Pelos ruídos da casa e pelas buzinas
Entradas pela janela, pela orelha esquerda


Minhas técnicas mnemônicas consistem
Olhar as 3x4 presas nas frestas do armário
Em comer um sanduíche enquanto leio
Pensar a utilidade de um som para o quarto


Tenho treze anos e havia um menino na escada
Tenho quatro anos e é meu aniversário hoje
Tenho dezesseis anos e volto a pé da escola
Tenho dezoito anos e posso entrar no cinema
Tenho todas as idades, em lapsos de lembrança
Tenho todas as vidas imaginadas na história


Sou Hesíodo, mitológico, e digo que no início
O amor era criador de toda vida conhecida
Existiam apenas o Amor, o Caos e a Terra
E do Caos se deu a noite e a escuridão


Nasceu o Éter, a luz celestial e o Dia, a luz terrena
Gaia e Urano eram senhores primeiros do universo
Cronos destronou seu pai e, acossado, devorava seus filhos
Mas Zeus escapou e foi morar no Monte Olimpo, muito alto


Atlas está aí até agora segurando a abóboda terrestre
Osíris ainda pesa corações na balança da morte
Rômulo e Remo foram largados à sorte
Mas foram salvos por Marte, o rei de todas as guerras


Ahura-Mazda e Arimã são forças perpétuas da Pérsia
Povoando nossas escolhas, desde Zoroastro
E as bacantes de Dionísio, que também atende por Baco
Largam maridos e filhos a rodo na região do Lácio


O Helenismo era uma fusão de tradições diversas
O Monte Palatino era alto pra cacete em Roma
Salomão era filho de Davi, muito embora
Seu nome seja mais velho e de maior probidade


Para muitas civilizações da antiguidade
Não existia um Estado unificado
Alexandre destruiu cidades gregas,
Atenas foi poupada da destruição


Alexandre foi aluno de Aristóteles
Que teria sido aluno de Platão
Que era aluno de Sócrates
E Sócrates era Platão


Sou todas as histórias, que a História é uma lenda
Preciso de um incenso e um aparelho de som no quarto
Já decidi que da vida levo o que for mais provável
Que a verdade suprema, a mãe de todas as verdades
É que não existe verdade. E que isto é uma mentira


Tenho que ensinar palavras decoradas?
Quero socializar a chave que abre todos os planetas:

- Abras com calma o livro sob o fundo musical da aurora
Olhes as brancas entrelinhas, olhes de perto. Concentres.


Esqueças por um instante a cinza sonoridade
Que emana dos carros velozes e ranger dos edifícios


Não confies nos códigos impressos em preto nas obras
Confie apenas nas dobras e na áurea planície da margem

Por baixo das letras fenícias, que é seiva na alma das folhas
Estão todos os fatos do passado
Estão todos os segredos proibidos


Esperando intérpretes destemidos
Os melhores livros se calam
Não contam sentidos tão plenos
De pronto, aos seres que falam


Não carecemos de informes completos.
Precisamos antes de asas,
de asas de papel escrito
De asas de hertz, e  vozes,
de corpos vibratórios e infinitos.


Aparelho de som no quarto! Música para os meus ouvidos!